28 de abril de 2015

Manifestações nos EUA tomam as ruas de Baltimore contra a atuação racista da polícia

Foto: Gettyimages


País protagonizou mais um caso de violência policial contra negros. Com a morte de um jovem na cidade Baltimore, protestos violentos tomam as ruas norte-americanas

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

Durante a última semana, assim como aconteceu em diversas cidades norte-americanas no segundo semestre de 2014, manifestantes foram às ruas denunciar a violência policial contra negros no país. Na cidade de Baltimore, a mais populosa do estado de Maryland, nordeste dos EUA, diversas pessoas engrossaram protestos após a morte de mais um jovem negro. Freddie Gray, de 25 anos, foi morto pela polícia do estado no dia 19 de abril.

No dia 12 do mesmo mês, o jovem foi abordado pela polícia local. Segundo a versão oficial, após uma breve perseguição Gray foi parado por agentes, supostamente em bicicletas, que solicitaram uma van para transportá-lo à delegacia. Ainda de acordo com a polícia, não foi necessário o uso de força física na abordagem. Em um vídeo gravado por testemunhas, no entanto, é possível ver o jovem sendo arrastado para o veículo policial com as pernas aparentemente “moles”, sem conseguir andar, e gritando.

Assista o vídeo:

As informações sobre o que aconteceu com Freddie, após entrar no veículo, permanecem obscuras. Segundo o Departamento de Polícia de Baltimore, a van parou três vezes antes de chegar à delegacia. Na primeira vez, o jovem teria demonstrado hostilidade contra os oficiais, que encostaram o veículo e imobilizaram o suspeito no banco de trás. Na segunda parada, outro suspeito foi colocado na van para ser levado à delegacia. A terceira – e última – foi na delegacia, onde médicos foram chamados para atender o jovem.

Encaminhado para o hospital, permaneceu internado por uma semana e foi declarado morto no dia 19 de abril. A causa foi uma lesão na medula espinhal.

A pedido da família exames foram realizados. Os resultados indicam algumas sequelas no corpo da vítima, entre elas, um comprometimento de 80% da região lesionada, além da caixa vocal esmagada. As investigações ainda não chegaram a um resultado conclusivo e ainda não é possível afirmar quando Freddie Gray foi agredido.

Na última sexta-feira (24), durante entrevista coletiva, o comissário de polícia de Baltimore, Anthony W. Batts, admitiu que os policiais deveriam ter solicitado cuidados médicos para Gray no momento da abordagem e não na delegacia – como ocorreu – 50 minutos após o início da abordagem. O comissário também afirmou que os policiais quebraram procedimento por não transportar o suspeito de maneira apropriada dentro da van, sem o uso de cinto de segurança. Seis oficiais envolvidos foram afastados e aguardam investigação para saber se serão indiciados.

Ruas tomadas em Baltimore

O caso provocou a revolta na cidade de Baltimore, que tem uma população majoritariamente negra. Os manifestantes exigem a responsabilização dos envolvidos e o fim da violência do Estado contra as comunidades mais pobres. Algo que afirmam ser recorrente.

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Protesto no dia 25, logo apoós a morte de Freddie Gray (Foto: Reprodução Facebook)

No dia seguinte do anúncio da morte, pessoas já tomavam as ruas e protestavam em frente à delegacia onde Gray foi levado. As manifestações seguiram durante toda a semana.

No sábado (25), um grande protesto foi convocado e reuniu centenas de pessoas. A marcha percorreu a cidade exigindo a responsabilização dos policiais. Durante o ato, objetos foram atirados em oficiais, viaturas foram quebradas e comércios depredados por grupos de manifestantes indignados com os recorrentes abusos policiais na região. A polícia realizou diversas prisões.

Só na segunda-feira (27) que os protestos em Baltimore viraram manchete em todo o país. Após o funeral de Freddie Gray, manifestantes tomaram as ruas novamente indignados com a demora de uma resolução por parte das autoridades.

Durante a tarde, grupos atearam fogo em viaturas, atiraram objetos em policiais e depredaram lojas, que foram saqueadas. De noite, o fogo se espalhou pelas ruas. Carros, comércios e um conjunto habitacional em construção foram incendiados – ainda não foi comprovada a ligação de manifestantes com o incêndio no conjunto habitacional.

Muitos moradores dos bairros atingidos condenavam a ação dos que protestavam. Líderes religiosos e a família de Freddie Gray pediam calma e alertavam ser contra a própria comunidade que os manifestantes estavam agindo. Segundo a polícia, 15 policiais ficaram feridos, e mais de 20 pessoas foram presas.

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Foto: Dariel Medina/AJ+

A cobertura dos grandes canais de televisão exibia exaustivamente imagens de incêndios e questionava a falta de ação policial. Entre outras demandas, os veículos pediam uma ação mais “enfática” das autoridades para reprimir os protestos. O discurso era que o “caos” havia tomado conta da cidade, logo, algo precisava ser feito.

Assim como em Ferguson no ano passado, parte da mídia parece ignorar os movimentos contra a violência policial, a menos que possam ser dissociados da ação dos “verdadeiros manifestantes”, provoquem transtornos e passem a ser criminalizados.

Os atos de violência foram classificados como ação de bandidos, assim como acontece no Brasil, diferenciados do resto dos manifestantes “do bem”.

Estado de emergência

O governador de Maryland, Larry Hogan, declarou estado de emergência e pediu ajuda da Guarda Nacional para conter os manifestantes.

A prefeita de Baltimore, Stephanie Rawlings-Blake, afirmou ainda que, na terça-feira, a cidade deve se preparar para o toque de recolher. O que permanecerá vigente por toda a semana durante a madrugada, das 22h às 5h.

Em entrevista ao canal de televisão CNN, a prefeita foi questionada por não ter decretado a medida e reprimido a ação dos protestos antes dos incidente da noite de segunda-feira. Sua justificativa foi baseada no intuito de garantir o direito de livre manifestação da população, afirmando acompanhar o desenrolar da situação nas ruas para comandar as ações policiais.

Outros casos
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Foto: Dariel Medina/AJ+

Os protestos devem continuar na cidade de Baltimore. Apesar dos manifestantes divergirem sobre a forma de atuação, todos pedem a responsabilização dos envolvidos. A região sofre, há décadas, com o descaso do poder público e a violência policial de cunho racista.

Recentemente, outras situações similares da polícia terminaram com a absolvição de agentes do estado envolvidos na morte de jovens negros. Darren Wilson, responsável pela morte de Michael Brown, na cidade de Ferguson, em agosto de 2014, e Daniel Pantaleo, que enforcou Eric Garner até a morte em Staten Island em julho do mesmo ano, não foram sequer julgados por qualquer ação criminal. Ambos foram considerados inocentes de todas as acusações por júri popular.

Os dois casos foram o estopim do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) que parou cidades por todo o país durante o segundo semestre de 2014 e colocou em debate nacional discussões sobre as ações e a impunidade de policiais, especialmente contra negros e outras minorias. A causa ganhou notoriedade e diversas celebridades, como os jogadores da NBA LeBron James e Derrick Rose, também somaram na causa.

O caso Freddie Gray já mobiliza a cidade de Baltimore, além de ter levado pessoas de toda a parte dos EUA para protestar junto aos manifestantes locais.

Os gritos de ordem já voltam a ser ouvidos e a discussão sobre a violência policial nas comunidades está longe de acabar. Infelizmente, os recorrentes casos de abuso das forças do Estado também não parecem próximos de seu fim.